José Lino Souza Barros

Coluna do José Lino Souza Barros

Veja todas as colunas

O Gângster

De Nelson Rodrigues

30/05/2020 às 12:21
Ouça na Íntegra
00:00 00:00

Quase no fim do expediente, o Bicanca apareceu por lá. Era amigo de infância do Clodomir. Entra no gabinete, senta-se e começa:
— Rapaz, estou vivendo um drama em 25 atos e 32 apoteoses!
— Drama?
E Bicanca:
— Drama. Imagina você: — gosto de uma mulher casada.
Arrumando uns papéis, Clodomir deu o conselho cínico e brutal:
— Atraca!
Bicanca respira:
— Mascarada. Metida a séria. Diz que gosta do marido. Ah, rapaz! Estou num mato sem cachorro!
Clodomir ergue-se e apanha o paletó. Em pé, vai dizendo: - "Há quanto tempo ela está casada?
— Três anos.
— Muito bem. Eu não acredito, e te dou a minha palavra de honra, não acredito que ninguém goste de ninguém por mais de dois anos. Vai por mim que teu amor infeliz não gosta mais do marido!" Bicanca levanta-se:
— Explica-me uma coisa: — como é que você, um homem casado, tem essa teoria? Eu não entendo!
Clodomir dá uma risada:
— Eu sou a única exceção! E vamos embora que já estou atrasado!


Surpresa

Então, o Bicanca puxa do bolso traseiro da calça um revólver. Clodomir tinha pânico de armas de fogo e pediu: "Esconde esse troço! E como o outro virasse a arma, na sua direção, toma um susto: — "Põe isso pra lá!" Bicanca continua com a arma apontada:
— Senta!
— Estou com pressa!
Berra:
— Senta!
No seu espanto, balbuciou: — "Mas que atitude é essa?" Estavam ambos sentados. Sempre com a arma na mão e o dedo no gatilho, Bicanca continua:
— Quero te dizer o seguinte: — vou conquistar essa mulher no peito, na raça!
Implorou:
— Aponta pra outro lado!
E Bicanca:
— Escuta: — conto contigo pra conquistar essa mulher!
Recebe um impacto: — "Comigo? E por quê? O que é que eu tenho com o peixe? Por que comigo?" Sem desfitá-lo, diz:
— Porque a mulher é a sua!
Ergue-se em câmera lenta:
— Minha?
— Senta! Olha que esse troço pode disparar sem querer! Mas como eu ia dizendo: — Você vai me ajudar e eu te explico como. Apanha o telefone. Apanha, anda!
— Pra quê?
Bicanca trinca os dentes:
— Apanha! E olha: — eu cheguei à conclusão de que não posso viver sem a sua mulher. Ela não está à sua disposição, não é sua? Pois é — vamos acabar com essa exclusividade. Chegou a minha vez. Liga pra sua casa, liga!


Telefonema

Hesitou. Bicanca ergue-se, desfigurado pela raiva:
— Não facilita, rapaz, que eu te furo de balas!
De fato, encostou-lhe o cano do revólver na fronte:
— Eu vou ditando e você vai repetindo. E não gagueja porque já sabe!
Pálido, fez a ligação. Do outro lado da linha, atende a mulher. Bicanca começa a falar e Clodomir a repetir:
— Clarinha, dá um pulo aqui no escritório, com toda a urgência. O quê? Não pode? Coração, arranja uma desculpa e manda a visita embora. É um caso de vida e de morte. Eu posso morrer. Vem, chispada! Apanha um táxi, mas vem, já! Um beijo!
Desliga. Sem mexer a cabeça, no pavor de um tiro, pergunta:
— E agora?
— Vamos esperar.
Houve uma meia hora de expectativa. Bicanca ri, sórdido: — "Estou bancando o gângster de filme de cinema!" Em dado momento, Clodomir quis comovê-lo: — "Eu sou seu amigo de infância. Somos quase irmãos." Bicanca interrompe:
— É o sexo! O sexo não respeita amigo de infância, nada! E, além disso, você gosta de sua mulher muito menos do que eu. Você a trai com a primeira vigarista que aparece! E, portanto, eu me sinto com mais direito à sua mulher que você mesmo. Entendeu?
Por fim, chega Clarinha. Entra e pára diante da cena. Diz, assustada estupefata, num sopro de voz: — "Mas o que é isso?" Bicanca está com o cano do revólver encostado nas costas de Clodomir:
— Das duas uma: — ou você é minha agora ou seu marido morre. Ele prefere viver. Fala, Clodomir. Não prefere?
Balbucia,quase chorando:
— Prefiro.
Bicanca o cutuca com o revólver: — "Agora, sai e me deixa com sua mulher. Espera do lado de fora. Mas olha: — se você chamar a polícia ou coisa que o valha, fuzilo a tua mulher." Clodomir sai e, do lado de fora tem a brusca euforia de quem se salvou por milagre. O escritório está vazio. Só o office boy o esperava. Clodomir corre para o subalterno:
— Vai. Pode ir.
Dentro do escritório trancado, Bicanca baixa a voz:
— Escuta. Eu não vou te forçar nada. Só vai acontecer o que você quiser. O que você quer que aconteça?
Põe o revólver em cima da mesa e cruza os braços diante dela. Há uma pausa. E, então, ela aproxima-se daquele homem que estava disposto a morrer e a matar por sua causa. Clarinha era do tipo miúdo e colocou-se na ponta dos pés. Aperta o rosto do outro entre as mãos e dá-lhe na boca um beijo sem fim.


SONOPLASTIA: RENATO MIRANDA

Escreva seu comentário

Preencha seus dados

ou

    #ItatiaiaNasRedes

    RadioItatiaia

    Republicano planejava suspender vistos de estudantes universitários internacionais no país que estivessem assistindo aulas apenas online #itatiaia

    Acessar Link

    RadioItatiaia

    Foi a primeira vez que medida deste tipo foi adotada pela universidade #itatiaia

    Acessar Link