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Choro e ranger de dentes

Quatro anos depois que um mundo de lama matou, devastou e envergonhou, as discussões continuam parecidas com a vida de cidadãos sem rumo: aqueles que labutam no almoço para conseguir o jantar.

04/11/2019 às 12:09

 Antonio Cruz/ Agência Brasil

Quatro anos depois, o rompimento de uma barragem reafirma a nossa tragédia maior: a incapacidade de aprender com o passado para viver o presente sem sobressaltos e preparar um futuro de esperança. Incrível, mas Mariana continua como 300 anos atrás: a fartura da matéria-prima não resulta em vida digna para seus habitantes e a dependência de quem explora a riqueza natural revela absoluta falta de compromisso dos líderes políticos e econômicos com a sustentabilidade do município.

Vejam o noticiário: países ricos em petróleo, como os emirados árabes, a Arábia Saudita, estão investindo centenas de bilhões de dólares para atrair indústrias – desde as que retiram o sal da água do mar até as que atuam na inteligência artificial – e caprichando no acolhimento aos turistas para que, quando o petróleo acabar, as pessoas tenham alternativa de vida. 

Quatro anos depois que um mundo de lama matou, devastou e envergonhou, as discussões continuam parecidas com a vida de cidadãos sem rumo: aqueles que labutam no almoço para conseguir o jantar. Como todos os mineiros, lamento saber que, logo após o acidente, o governador da época foi discutir o assunto na sede da empresa responsável pelo desastre; lamento que famílias de classe média tenham maltratado, com atos ou omissões, as crianças desabrigadas em escolas da área central do município; sofro com a falta de punição cível e criminal para os responsáveis por mortes e destruição...

No entanto, o inaceitável é saber que não aprendemos. Que não estamos exigindo mudança de paradigma, isto é, dotar a região de meios para buscar uma nova economia. Só se ouve que a Vale tem de indenizar, que a vale tem de pagar, a Vale já comprou carro de polÍcia, ambulância, almoço, jantar...

A conversa tinha de ser em outro nível: fosse eu autoridade do município, exigiria das empresas, da Federação das Indústrias, dos governos estadual e federal investimentos em outras frentes para desmamar Mariana da mineração. Por que não abrir estradas, hotéis, criar opções turísticas para uma região histórica e maravilhosa? Por que não unir o sofrimento de Mariana e Brumadinho com a beleza do Inhotim, quem sabe através de um trem turístico que sairia de Belo Horizonte? Mas se não temos centro de eventos na capital e o Minascentro do Estado está fechado, como atrair médicos, engenheiros, profissionais de todas as áreas para congressos em nosso Estado, permitindo a eles e seus familiares desfrutarem a beleza, a religiosidade e a história de Minas?

Parece uma maldição: estamos condenados ao subdesenvolvimento. No lugar de vontade política, discursos vazios; em vez de projetos duradouros, malabarismo caça votos e no lugar de sustentabilidade o padrão alcoólatra de tomar uma para rebater e não curar a ressaca.

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